Recentemente, participei de um processo seletivo em uma empresa aqui de Uberaba. Foi uma experiência interessante… Pude reviver aquele frio na barriga e a ansiedade natural de quem deseja ser contratado. O processo teve três etapas: uma entrevista inicial, o desenvolvimento de uma peça, e, por fim, uma entrevista com a vice-presidente. Confesso que achei curioso essa última etapa, já que a vaga era para Analista Júnior. Sim… Júnior. Mas tudo bem, não me apego ao título, e sim à experiência e ao desafio, desde que a remuneração esteja compatível com o meu custo de vida.
Infelizmente, não fui contratado. Mas algo me chamou bastante atenção: a ênfase na ideia de que “aqui é uma empresa familiar”. Apesar de gerar mais de 8 mil empregos, entre diretos e indiretos, o CEO mantém um acompanhamento próximo de todos os colaboradores, o que, de fato, fortalece a cultura organizacional.
Na primeira etapa, comentei que já vinha de uma empresa familiar, onde tinha contato direto com o CEO e muitas vezes resolvia questões diretamente com ele. Curiosamente, essa informação não pareceu ser levada em consideração. Na segunda etapa, reforçaram novamente que a empresa era familiar. E, na entrevista final com a vice-presidente, mais uma vez ouvi: “Aqui é uma empresa familiar”.
Falaram também sobre a importância da discrição, sobre projetos que podem ou não ser aprovados — algo que, sinceramente, encaro com naturalidade. A empresa não é minha, e acredito que é preciso maturidade para entender certas decisões. Também comentaram sobre a diferença entre já ter ocupado o cargo de especialista e agora pleitear uma vaga de analista.
Resumindo: de 10 frases que ouvi, 8 giravam em torno do “somos uma empresa familiar”. Isso me fez pensar. E, claro, se tem algo que faço naturalmente é questionar. Sou homem, cis, homossexual, com expressão de gênero masculina — e vivo isso com tranquilidade. Na devolutiva da recrutadora, ela disse que eu não fui aprovado “por um detalhe”. Mas que detalhe seria esse?
Outro ponto que me chamou atenção foi um comentário da vice-presidente sobre a minha aparência. Há cerca de um mês, raspei o cabelo e estou usando a barba mais cheia, como gosto. No meu portfólio, no entanto, apareço com cabelo maior e a barba mais curta. Uma pessoa que já trabalhou nessa empresa comentou comigo: “João, eles vão no detalhe do detalhe. Inclusive, o CEO não gosta de barba e os colaboradores não usam. Só tem uma pessoa que ele aceita”.
Por fim, existe também uma questão que não posso ignorar: o núcleo de RH aqui na cidade. Muitas empresas trocam informações. Um amigo, por exemplo, estava querendo sair de uma empresa e foi fazer uma entrevista em outra. Antes mesmo de receber a devolutiva da nova empresa, o RH da empresa onde ele trabalha já sabia que ele não havia sido aprovado. Como trabalhei com uma pessoa extremamente respeitada e influente, acredito que, de alguma forma, ela pode ter interferido. A ética e os valores dessa pessoa são referência para muita gente.
Então, não sei ao certo o motivo de não ter sido selecionado. Mas, honestamente, vejo três possibilidades: minha sexualidade, minha aparência (cabelo e barba) ou uma eventual influência dessa pessoa iluminada.

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