Parada do Orgulho LGBT: uma análise do discurso homossexual no grupo secreto do Facebook



Já tem algum tempo, em que participo de alguns grupos secretos do Facebook. Alguns com a temática homossexual. E um dia de bobeira, acabei me envolvendo em uma enquete... Pelo menos foi o que achei...


No dia 11 de julho, nas vésperas da Parada do Orgulho LGBT, que aconteceria na Avenida Paulista em São Paulo (18), alguém perguntou no grupo. "Qual o significado das Paradas do Orgulho LGBT para vocês?". Uma simples pergunta, que até o dia 21 de julho, dez dias depois, o post acumulou 44 curtidas (26 likes, 18 orgulho e 1 amei) e 85 comentários. Possivelmente, se fosse a foto de alguém seminu ou um corpo com o estereótipo "perfeito", poderia ter rendido muito mais... Detalhes à parte, vamos fazer a uma pequena análise...

Para compor este texto, foi utilizado o seguinte critério: valorização do comentário, excluindo a interação entre os participantes. Com isso, foi observado o conteúdo das informações, sendo agrupado por categorias, descritas abaixo. Como ocorreram muitas respostas vagas, não foi possível identificar se a pessoa aprova ou desaprova a Parada Gay, por exemplo. Além disso, com base nas repostas consideradas validas, foi possível relacionar as palavras-chaves. Com esta pequena contextualização, chegamos a seguinte conclusão ou uma aproximação dos dados em porcentagem...

Das respostas apontadas pelos participantes do grupo, foi possível aproveitar 48,23% das informações para compor esta análise (critérios explicados acima). Desta quantidade, 38,58% dos participantes entendem que a Parada do Orgulho LGTB tem caráter de Militância, ou seja, de visibilidade. Porém, quase 32% destacaram a sua desaprovação em relação ao evento. Nas discussões, muitos aprontaram para a alteração da característica inicial do evento, sendo uma data para movimentação comercial e correlacionada a “putaria” (informação que será trabalhada abaixo). Aproximadamente 22% se mostraram indiferentes ao ato. Cerca de 10% informaram que a Parada não os representam.

Para ficar bem mais fácil a visualização destas informações, podemos verificar no gráfico abaixo.


A relação militância e “putaria” apresenta uma linha tênue, conforme as indicações das respostas. Muitos reconhecem que a proposta da Parada do Orgulho LGBT teve a sua configuração alterada. E com o passar do tempo, ela ganhou uma característica carnavalesca ou de micareta, como podemos observar nos discursos dos participantes.

- As Paradas do orgulho gay refletem o comportamento do gay atual, mas não reflete a luta gay que no momento está fragilizada. Hoje o gay é contra os demais e faz de tudo para não parecer gay, ser 'fora' do meio ou ser o machão que não toma bullying. - comentou um participante.

- Putaria sem pudores, porpurina pra todo lado e uma ótima oportunidade para bandidos, nada além disso hoje em dia... o verdadeiro sentido se perdeu, não é mais uma passeata onde o foco era o agrupamento da classe para reivindicar direitos e respeito. Pedem respeito e igualdade andando nus se drogando e esfregando sua sexualidade na cara das famílias ali presentes.. nada além de um carnaval fora de época. .. algo que mantém a imagem vulgar e desrespeitosa que os gays têm frente à sociedade... - acrescentou outro integrante.

- PEGAÇÃO / PUTARIA /MICARETA/FESTA ELETRONICA.... ato político é que não é !!!, enfatizou outro membro.

- Sodoma e Gomorra das letrinhas ali de cima [LGBT] - destacou outro rapaz.

- Acho bastante curioso ler comentários menosprezando a parada! Gostaria de saber quantas destas pessoas colocam energia na militância, quantas destas pessoas participam da organização, quantas destas pessoas pensam em representatividade e visibilidade. É fácil existir e criticar quando a luta já está travada. Eu sou paulistano, mas não vivo mais em SP, porém sei o quão importante é a parada para minha existência diária, para ocupar o cargo que tenho sem ter medo de ser demitido, de ser respeitado minimamente na rua... A resistência pode estar em todos os espaços. A luta é coletiva!!! - alertou.

Agrupando todos os comentários válidos, foram contabilizadas 102 palavras-chaves, mas para ficar melhor a visualização elas foram agrupadas da seguinte maneira, conforme o gráfico.


Muitos apontaram a relação da “putaria” da qual a Parada do Orgulho LGBT tem apresentado ao longo das suas edições. Interessante verificar que estas são respostas de um grupo destinado ao público homossexual. Um grupo minoritário que tem muitos espaços negados pelo padrão normativo da sociedade. Que entendem das características da militância, porém enxergam a para como algo “depravado”.

“Putaria” ou não, a Parada é construída por pessoas. Elas que compõem e dão corpo a grande visibilidade, ou seja, a parada é o reflexo do que as pessoas estão projetando ao espaço. O evento é muito maior do que um simples rótulo. Porém, com a celebração festiva ou “carnaval/micareta” (em nome da diversidade) fora de época, vemos as mesmas situações nos eventos “heteronormativos”. Não existem diferenças nos eventos homo ou hétero.

“Putaria” por “putaria”, isso existe em todos os grupos. Não é especificamente da homossexualidade. Então, qual a diferença?  Particularmente, vejo que está no mix de letrinhas (LGBT), no qual as pessoas tendem a ignorar.

Cada um é livre para se expressar. Cada um é livre para fazer o quiser com o próprio corpo. Afinal... seu corpo, suas regras. Infelizmente, não vemos uma união ou uma coesão no grupo homossexual.

Luta, militância e visibilidade 

A busca por reconhecimento e visibilidade é luta que se iniciou com o final da Segunda Guerra Mundial. De maneira geral, diversos movimentos sociais se espalharam pelo mundo com o pós guerra. Estes movimentos se estruturaram durante o período industrial, e por serem frutos deste período, são denominados “novos movimentos sociais”. As lutas e militâncias estavam correlacionadas ao reconhecimento da reivindicação de um grupo ou contra a opressão de um grupo dominante. Elas foram importantes, já que retrataram na sociedade a dialética existente entre o opressor e o oprimido, como por exemplo a luta feminista.

Foi neste período, e seguindo os mesmos princípios dos “novos movimentos sociais”, que os homossexuais começaram a sair da clandestinidade e se apresentar como indivíduos pertencentes a sociedade. O marco está em Nova York. A cidade contava com um bar (Stonewall Inn), voltado especificamente para os homossexuais. A polícia tentou invadir o estabelecimento sob alegação de descumprimento de leis sobre venda de bebidas alcoólicas. Situação que acontecia repetitivamente, na qual os frequentadores eram humilhados e agredidos. Para a surpresa dos policiais, os homossexuais se rebelaram contra a opressão praticado pelos representantes do Estado. Foi onde iniciou uma onda de protestos. Eles duraram uma semana e se tornou um marco mundial para o movimento homossexual. Um ano após este episódio, foi organizado a primeira marcha homossexual de Nova York, o que se tornou exemplo para outras localidades, como Los Angeles e São Francisco. Estas foram as primeiras paradas gays do mundo, evidenciando a existência de uma diversidade de gênero.

De lá para cá, ocorreram muitas alterações, incluindo vários reconhecimentos no âmbito político e social. Situação que foi possível com a organização e militância. Ronaldo Trindade (O Mito da multidão: uma breve história da parada gay de São Paulo, 2011), destaca que no Brasil, a homossexualidade tem cada vez mais visibilidade na sociedade com as paradas gays, semelhantes de São Paulo. Com isso, a causa homossexual ganhou mais espaço nos meios de comunicação, favorecendo a criação de canais e veículos exclusivos para este público. Com mais adeptos, outras estruturas passaram a ser influenciadas, principalmente pelo movimento econômico que gira entorno da parada gay, e o mercado para os homossexuais passou a ser explorado. Os empresários passaram a investir em um público segmentado. Isso foi possível com as paradas gays.

Podemos perceber que as movimentações econômicas nas paradas favoreceram os setores de comércios e serviços. Desta maneira, o segmento homoerótico/homossexual passa a ser um nicho de mercado, o que ficou mais evidente na edição de 2017. Atualmente, empresas de turismo investem neste segmento, principalmente nos grandes centros urbanos, já que estes contam com diversos atrativos, como os bares, saunas, pubs e festas, que podem estar relacionadas ou não com as paradas gays.


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